terça-feira, 14 de maio de 2013

COMUNICAÇÃO E AUTOCRÍTICA


COMUNICAÇÃO E AUTOCRÍTICA

Me lembro de duas ocasiões em que ocorreram mudanças sensíveis nas pessoas envolvidas, muito embora a comunicação entre as partes tenha sido inicialmente muito mal interpretada.

A primeira ocorreu com a nutricionista responsável pela alimentação, principalmente almoço, que era oferecida pela empresa aos seus funcionários.  A cozinha, na época, funcionava com pessoal da própria empresa e primava pela qualidade da comida oferecida.  A nutricionista, de família japonesa, era muito ciosa do seu trabalho e orgulhosa da qualidade da comida e dos serviços que eram muito bem avaliados pelos usuários nas pesquisas realizadas.

Um certo dia a nutricionista entra na minha sala aos prantos.  Tentei acalmá-la e, após algum tempo, ela desabafou sobre o que havia ocorrido.  O sistema de serviço do restaurante era que cada funcionário escolhia o que queria e colocava em sua bandeja, encaminhando-se depois para uma das mesas do refeitório.  Na fila das sobremesas, onde por acaso a nutricionista se encontrava, uma das pessoas pegou uma salada de frutas, olhou para ela e a devolveu para o balcão, fazendo o seguinte comentário para o colega que o acompanhava:  Esta salada está parecendo vômito.  Ela se sentiu profundamente ofendida, já que tudo que fazia, na sua opinião, fazia com muito amor e não merecia aquele tipo de comentário.  Este era o motivo pelo qual ela veio a mim daquela forma.  Disse-lhe que o comentário havia sido feito de uma forma rude, mas que ela fosse para casa aliviar a cabeça e que no dia seguinte voltasse a mim para, com a cabeça fria, conversar mais a respeito.

No dia seguinte ela voltou à minha sala e disse o seguinte: 

-       Fui para casa, conforme Você me pediu, e pensei bastante a respeito.  Hoje de manhã fui à cozinha dar uma olhada na salada de frutas e cheguei à conclusão que não estava com uma aparência boa mesmo.  Já revi com o pessoal o que fazer para melhorar.  Embora a forma com a qual recebi este feedback não tenha sido a mais polida, o choque que me causou me sacudiu e me conduziu à uma melhoria do processo.
-       Apenas respondi: Parabéns!

A segunda ocorreu comigo mesmo.  Eu me reportava a um gerente para quem preparava resposta às cartas recebidas e, na época, telexes em inglês.  Nunca recebi por parte dele nenhuma correção ao que havia escrito.   Este gerente foi substituído por outro e, na primeira ocasião em que eu preparei uma resposta a uma carta em inglês para a assinatura dele, ele simplesmente riscou praticamente tudo o que eu havia escrito e reescreveu uma nova resposta.  A minha reação inicial foi a pior possível.  Que absurdo, eu nunca havia tido uma proposta de resposta corrigida até ele chegar.  O que será que ele está querendo me dizer?  Fiquei realmente muito chateado e impactado.  Deixei passar o dia com outros assuntos e, no dia seguinte, peguei novamente a resposta que ele preparou e comparei com a minha proposta. O que constatei foi que a dele era muito melhor do que a minha. 

A partir daí propus a mim mesmo melhorar e atingir o objetivo de ter uma proposta de resposta aprovada sem nenhuma correção.  Após três meses, consegui a proeza de ter uma proposta aprovada sem nenhuma restrição!  Fiquei feliz da vida.  Ele nunca soube de nada e, embora nada tenha sido dito por ninguém, foi uma das comunicações mais efetivas que tive a oportunidade de observar. 

por: Rudolf Höhn
ex-presidente IBM Brasil 
sócio-presidente i-Hunter Tecnologia da Informação


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